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Gestão de Riscos

Gestão de riscos na construção civil: riscos do projeto de obra

Uma obra concentra quase todos os tipos de incerteza que um projeto pode ter: solo que só se conhece de verdade depois de escavar, chuva fora de época, insumos com preço instável, licenças que dependem de terceiros, dezenas de subempreiteiros e um contrato que raramente perdoa atraso. O gerenciamento de riscos na construção civil existe para que essas incertezas sejam tratadas antes de aparecerem como aditivo, multa ou retrabalho.

Uma confusão comum no canteiro atrapalha o tema logo de saída. Quando se fala em "gerenciamento de riscos" numa obra, muita gente pensa no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), o documento de segurança e saúde no trabalho exigido pela NR-18 e pela NR-1. Ele é obrigatório e importante, mas trata dos riscos aos trabalhadores. A gestão de riscos do projeto olha para tudo o que pode afetar prazo, custo, escopo e qualidade da obra, e a segurança é uma parte disso.

Este estudo de aplicação mostra os riscos típicos do projeto de obra, como quantificar os riscos de prazo e custo, uma matriz de riscos ilustrativa e a rotina para manter o tema vivo no canteiro. A base conceitual está no guia de gestão de riscos em projetos.

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O que torna o gerenciamento de riscos na construção civil diferente

  • Irreversibilidade. Concreto lançado não volta. Em software dá para refazer uma tela; numa fundação, o erro custa caro e paralisa as etapas seguintes.
  • Dependência do clima. Terraplenagem, fundação, estrutura e cobertura são sensíveis à chuva.
  • Cadeia longa de fornecedores. Concreteira, aço, esquadrias, elevadores e instalações têm prazos próprios e, muitas vezes, poucos fornecedores na região.
  • Licenças e órgãos externos. Alvará, licença ambiental, aprovação do corpo de bombeiros e ligações das concessionárias dependem de terceiros.
  • Contratos rígidos. Preço global, prazo fixo e multas fazem cada risco virar disputa contratual.
  • Segurança. Um acidente grave pode levar à interdição da frente de trabalho e a atraso, além do dano humano.

Principais riscos do projeto de obra, fase a fase

Fase Riscos típicos (ameaças) Oportunidades possíveis
Projeto e concepção Sondagem insuficiente; incompatibilidade entre projetos de arquitetura, estrutura e instalações; projeto executivo incompleto Compatibilização antecipada que reduz retrabalho
Licenciamento Atraso no alvará, na licença ambiental ou na aprovação dos bombeiros; exigências não previstas Aprovação antes do prazo, permitindo antecipar a mobilização
Suprimentos Alta de preço do aço, cimento ou cobre; atraso de esquadrias e elevadores; fornecedor único Compra antecipada com preço travado
Execução Chuva em fundação e estrutura; produtividade abaixo do previsto; retrabalho por falha de execução; interferência com redes existentes Método construtivo mais rápido (pré-moldados)
Segurança e meio ambiente Acidente com paralisação; descarte irregular de resíduos e autuação Certificação ambiental que valoriza o empreendimento
Contrato e cliente Mudanças de escopo pedidas pelo cliente; atraso de medição e pagamento; disputa sobre aditivos Mudança aprovada com ganho de margem
Entrega Pendências na vistoria e no habite-se; ligações definitivas de água e energia atrasadas Entrega antecipada de torres ou blocos

Para listas de riscos de outros tipos de projeto, use o artigo de exemplos de riscos em projetos.

Riscos de prazo e custo na obra: como dimensionar

Saber que "pode chover" não ajuda a negociar prazo nem reserva. O risco precisa virar número.

  1. Escreva o risco com causa, evento e efeito. "Porque a fundação está prevista para fevereiro, período chuvoso na região, pode haver mais dias parados que o previsto, o que atrasaria a estrutura e o marco de laje do térreo."
  2. Estime a probabilidade com dados. Use histórico de chuva da região e registros de obras anteriores da empresa, se houver. Diário de obra antigo é uma fonte valiosa.
  3. Estime o impacto em dias e em reais. Dias parados vezes custo diário da obra (equipe, equipamentos, administração local), mais o efeito sobre marcos contratuais.
  4. Calcule o valor monetário esperado (VME). Probabilidade vezes impacto. Exemplo ilustrativo: 40% de chance de perder dez dias, a R$ 12 mil por dia, dá VME de R$ 48 mil.
  5. Some os VMEs para uma referência de reserva. A soma dos riscos identificados ajuda a sustentar a reserva de contingência. Riscos não identificados ficam com a reserva gerencial. A diferença entre as duas está explicada no artigo sobre reserva de contingência e reserva gerencial.

Para riscos de preço, acompanhe o índice que corrige o contrato ou o insumo. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), da Fundação Getulio Vargas, é um índice muito usado em contratos do setor, mas o aço ou o cobre podem variar bem acima da média do índice.

Exemplo ilustrativo de matriz de riscos de obra

Edifício residencial de quatro pavimentos, contrato de preço global, prazo de 14 meses. Escala de 1 a 5 para probabilidade (P) e impacto (I); pontuação é P × I.

ID Risco (resumo) P I Pontuação Resposta Dono
R01 Solo com resistência menor que a da sondagem exige reforço da fundação 2 5 10 Mitigar: sondagem complementar antes do projeto executivo Engenheiro de estruturas
R02 Chuva acima do previsto atrasa fundação e estrutura 3 4 12 Mitigar: sequência alternativa de serviços e cobertura provisória Engenheiro residente
R03 Alta do aço encarece a estrutura 3 4 12 Transferir parcialmente: compra antecipada com preço fixo Suprimentos
R04 Esquadrias chegam com atraso e travam o acabamento 3 3 9 Mitigar: pedido antecipado e inspeção na fábrica Suprimentos
R05 Incompatibilidade entre estrutura e instalações gera retrabalho 3 3 9 Evitar: compatibilização em modelo único antes da obra Coordenador de projetos
R06 Acidente com queda de altura paralisa a frente de trabalho 2 5 10 Mitigar: proteção coletiva e inspeção diária, conforme o PGR Técnico de segurança
R07 Habite-se atrasa por pendências documentais 2 4 8 Mitigar: checklist de documentos desde o início da obra Gerente do contrato
O01 Pré-moldados nas escadas reduzem o prazo da estrutura 3 3 9 Explorar: cotação e análise de custo Engenheiro residente

Na matriz, R02 e R03 ficam no topo e recebem gatilho e acompanhamento semanal. O passo a passo para montar a sua está no artigo matriz de riscos: o que é e como montar.

Obras públicas: a matriz de alocação de riscos da Lei 14.133

Em obras públicas, além da gestão de riscos do projeto, existe a matriz de alocação de riscos do contrato. A Lei 14.133/2021 prevê que o edital pode contemplar uma matriz que distribui os riscos entre contratante e contratado, e a torna obrigatória em obras e serviços de grande vulto e nos regimes de contratação integrada e semi-integrada. A lei também pede que a matriz preveja mecanismos para afastar a ocorrência do sinistro e reduzir seus efeitos, e que o contrato reflita essa alocação no equilíbrio econômico-financeiro.

São instrumentos diferentes: a matriz de alocação define quem arca com cada risco; a gestão de riscos do projeto define como cada risco será tratado no dia a dia. Uma construtora que assumiu o risco geológico no contrato precisa, mais do que nunca, de uma resposta para ele no seu registro. O tema está aprofundado no artigo sobre matriz de alocação de riscos em contratos.

Como levar a gestão de riscos para a rotina do canteiro

  1. Oficina de riscos na mobilização. Reúna engenheiro residente, mestre de obras, suprimentos, segurança, projetistas e, se possível, o cliente. Use a tabela por fase como roteiro.
  2. Cinco maiores riscos na reunião semanal de obra. Dez minutos bastam: o que mudou, que gatilho está perto de disparar, que ação venceu.
  3. Diário de obra como fonte de sinais. Dias de chuva, faltas, atrasos de entrega e não conformidades são os primeiros indícios de que um risco está se materializando.
  4. Programação de curto prazo. Ao planejar as próximas semanas, pergunte o que pode impedir cada serviço e remova a restrição antes.
  5. Revisão por marco. Ao fechar fundação, estrutura e vedações, atualize o registro: riscos encerrados saem, riscos da fase seguinte entram.
  6. Lições aprendidas no encerramento. O que aconteceu, quanto custou e o que funcionou alimentam o orçamento e a lista de riscos da próxima obra.

Para começar na sua obra, abra a matriz de riscos gratuita da Projeto Diário, escolha o tipo de projeto "Construção e obras" e marque os riscos comuns que se aplicam. Depois ajuste probabilidade e impacto com a equipe, informe o impacto em reais para calcular o VME e leve o mapa de calor para a próxima reunião com o cliente.

Perguntas frequentes

Quais são os principais riscos de uma obra?
Os mais frequentes envolvem projetos incompletos ou incompatíveis, condições do solo diferentes das previstas, atraso em licenças, variação de preço e prazo de insumos, chuva em etapas sensíveis, produtividade da mão de obra e acidentes que levam à paralisação.
PGR da obra e gestão de riscos do projeto são a mesma coisa?
Não. O Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) exigido pelas normas regulamentadoras trata da segurança e saúde dos trabalhadores. A gestão de riscos do projeto trata de tudo que afeta prazo, custo, escopo e qualidade da obra, incluindo a segurança, mas não só ela.
A matriz de riscos é obrigatória em obra pública?
Pela Lei 14.133/2021, o edital pode prever matriz de alocação de riscos e deve obrigatoriamente prevê-la em obras e serviços de grande vulto e nos regimes de contratação integrada e semi-integrada. Confira sempre o texto da lei e as orientações do órgão contratante.
Como calcular a reserva de contingência de uma obra?
Uma forma comum é somar o valor monetário esperado dos riscos identificados, multiplicando a probabilidade de cada risco pelo seu impacto em reais. O resultado é uma referência para negociar a reserva, não um valor exato.

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