Reserva de contingência e reserva gerencial: qual a diferença
O orçamento do projeto foi aprovado com R$ 1,2 milhão. No sexto mês, o fornecedor de um equipamento importado repassa a alta do câmbio e a conta sobe R$ 60 mil. O gerente pode pagar com a reserva de contingência ou precisa pedir ao patrocinador? A resposta depende de duas coisas: se aquele risco estava no registro e como o orçamento foi montado. Sem essa clareza, cada estouro vira negociação, e o dinheiro guardado para riscos acaba gasto em outra coisa.
A reserva de contingência e a reserva gerencial existem para separar dois tipos de incerteza: a que o projeto conhece e a que ninguém previu. O PMBOK, guia do Project Management Institute (PMI), usa essa divisão há várias edições, e ela é cobrada nas provas de certificação. A seguir estão a diferença entre as duas, como dimensionar cada uma, onde ficam no orçamento e as regras para usar e controlar o saldo. O lugar das reservas no ciclo completo de riscos está no guia de gestão de riscos em projetos.
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A diferença em uma tabela
| Reserva de contingência | Reserva gerencial | |
|---|---|---|
| O que cobre | Riscos identificados, que estão no registro | O que não foi identificado (os "desconhecidos desconhecidos") |
| Como se calcula | A partir dos riscos: valor monetário esperado, simulação ou estimativa por risco | Percentual definido pela organização, pelo histórico ou pelo patrocinador |
| Onde fica | Dentro da linha de base de custos | Fora da linha de base, dentro do orçamento total |
| Quem autoriza o uso | Gerente de projetos, conforme as regras do plano | Gestão ou patrocinador, por meio do controle de mudanças |
| Efeito do uso na linha de base | Nenhum: o valor já está nela | A linha de base aumenta quando o uso é aprovado |
| Também existe para prazo? | Sim: folga de tempo associada aos riscos do cronograma | Sim: prazo guardado para imprevistos, quando a organização adota |
A conta que liga as duas é simples. A linha de base de custos é a soma das estimativas das atividades com a reserva de contingência. O orçamento do projeto é a linha de base mais a reserva gerencial.
Reserva de contingência: o que cobre e como dimensionar
A reserva de contingência paga as consequências dos riscos que o projeto já conhece e aceitou, total ou parcialmente. Também paga os planos de contingência que só serão executados se um gatilho disparar. Um exemplo: o risco de chuva atrasar a concretagem foi aceito com contingência de duas semanas e R$ 30 mil de equipe extra. Esses valores fazem parte da reserva.
Ela não paga as respostas planejadas que serão executadas de qualquer jeito. Se a equipe decidiu mitigar um risco com um teste de integração antecipado, o custo do teste entra no orçamento das atividades, como qualquer outra tarefa.
Três formas de calcular
- Soma do valor monetário esperado. Para cada ameaça relevante, multiplique a probabilidade pelo impacto em reais e some. Desconte o valor esperado das oportunidades, se a regra do plano permitir. É o método mais comum em projetos médios. O cálculo, com exemplo, está em valor monetário esperado.
- Simulação de Monte Carlo. Em projetos grandes, a simulação mostra o custo para cada nível de confiança. Se o plano pede 80% de confiança, a reserva é a diferença entre o percentil 80 e a estimativa base. Os critérios para decidir se vale a pena estão em análise quantitativa de riscos.
- Percentual por analogia. Na falta de dados, usa-se um percentual baseado em projetos parecidos da organização. É o método mais fraco, porque não liga a reserva a riscos específicos, e deve ser substituído assim que o registro estiver pontuado.
Exemplo com números ilustrativos
Numa implantação de sistema com orçamento de atividades de R$ 600 mil, as ameaças principais são estas:
| Risco | Probabilidade | Impacto | Valor esperado |
|---|---|---|---|
| Atraso do fornecedor de licenças | 30% | R$ 40.000 | R$ 12.000 |
| Retrabalho na migração de dados | 50% | R$ 50.000 | R$ 25.000 |
| Saída de desenvolvedor-chave | 20% | R$ 60.000 | R$ 12.000 |
| Multa por atraso na entrada em produção | 10% | R$ 80.000 | R$ 8.000 |
| Total das ameaças | R$ 57.000 | ||
| Oportunidade: reaproveitar módulo de outro projeto | 25% | R$ 20.000 a favor | (R$ 5.000) |
| Reserva de contingência sugerida | R$ 52.000 |
A linha de base fica em R$ 652 mil. Se a organização acrescenta reserva gerencial de 5% a projetos de tecnologia, entram mais cerca de R$ 33 mil fora da linha de base, e o orçamento total fica perto de R$ 685 mil.
Note que nenhum risco individual cabe inteiro na reserva se acontecer junto com outros. A reserva cobre a exposição média do conjunto, não o pior cenário. É por isso que o saldo precisa ser acompanhado a cada mês.
Reserva gerencial: para o que ninguém previu
A reserva gerencial existe porque nenhuma identificação de riscos é completa. Ela cobre eventos que não estavam no registro: uma mudança de legislação que ninguém mapeou, a falência de um fornecedor considerado sólido, um erro de estimativa grosseiro. Não cobre mudança de escopo pedida pelo cliente, que tem caminho próprio pelo controle de mudanças.
Três regras costumam acompanhar a reserva gerencial:
- Fica com a gestão, não com o projeto. Em muitas organizações, ela é controlada pelo patrocinador, pelo escritório de projetos (PMO) ou pela área financeira.
- O uso exige pedido formal. O gerente apresenta o evento, o valor e por que a contingência não cobre. Se aprovado, o valor passa para a linha de base.
- O percentual é decisão da organização. Não existe um número padrão no PMBOK. O valor depende do histórico da empresa, do grau de novidade do projeto e do apetite a riscos do patrocinador.
Reservas de prazo
Tudo o que vale para dinheiro vale para tempo. A reserva de contingência de prazo é a folga associada aos riscos do cronograma, de preferência posicionada antes de marcos importantes e não espalhada como gordura em cada atividade. Uma estimativa de três pontos (otimista, mais provável e pessimista) ajuda a mostrar quanto de folga a incerteza das atividades do caminho crítico pede.
Folga escondida em cada estimativa é o erro mais comum. Quando cada pessoa acrescenta "uns dias por segurança", a reserva existe mas ninguém a enxerga, e ela costuma ser consumida mesmo sem risco nenhum acontecer.
Como usar e controlar o saldo
- Registre cada uso ligado a um risco. "R$ 18 mil da contingência para o R04, retrabalho na migração, gatilho disparado em 12/05." Sem esse vínculo, não há como saber se a reserva foi bem dimensionada.
- Compare saldo e exposição todo mês. Se o saldo da contingência ficar abaixo do valor esperado dos riscos ainda abertos, o projeto está descoberto. É hora de reforçar respostas, rever escopo ou pedir decisão sobre a reserva gerencial.
- Libere a reserva dos riscos encerrados. Quando a janela de um risco passa sem que ele aconteça, a parte da reserva associada a ele volta a ficar disponível ou é devolvida, conforme a regra do plano. Reserva que nunca é revista vira verba livre.
- Recalcule depois de cada resposta. A resposta reduz o risco, mas deixa um risco residual e às vezes cria um risco secundário. Os dois podem pedir reserva, como mostra o artigo sobre risco residual e risco secundário.
- Mostre o saldo ao patrocinador. Reserva usada, saldo e exposição aberta são três números que cabem em qualquer relatório de riscos.
Quando um risco crítico acontece e a contingência precisa ser acionada às pressas, o artigo sobre como estruturar planos de contingência para projetos críticos mostra como organizar a execução.
Erros comuns com as reservas
- Reserva sem lista de riscos. Um "10% de contingência" sem relação com o registro não se defende diante do diretor financeiro.
- Usar a contingência para escopo novo. O projeto fica sem proteção para os riscos que ela deveria cobrir.
- Reserva gerencial na mão do gerente. Ela deixa de ser uma decisão da gestão e vira extensão do orçamento.
- Esconder a reserva nas estimativas. A folga existe, mas some sem controle.
- Não devolver nada. Projetos que terminam com reserva intacta e não a devolvem ensinam a organização a desconfiar das próximas estimativas.
Próximo passo
Pegue as cinco maiores ameaças do seu registro, estime probabilidade e impacto em reais, some os valores esperados e compare com a reserva que o orçamento tem hoje. Se os números não conversam, leve a diferença ao patrocinador antes que um risco aconteça. Para defender reservas, orçamento e decisões de projeto com mais segurança diante da alta administração, o curso Gerente de Projetos Expert trabalha as habilidades técnicas e comportamentais que o gerente usa nessas conversas.