Previsão de entregas no Kanban: quando o trabalho fica pronto
"Quando fica pronto?" é a pergunta que todo gerente ouve do patrocinador, do cliente e da diretoria. Em equipes que usam o método Kanban, a previsão de entregas não precisa depender de estimativas em horas ou em pontos: ela pode sair do histórico do próprio quadro. Com as datas de início e fim dos itens já terminados, você responde quando um item deve ficar pronto e quando um conjunto de itens deve terminar, sempre com uma probabilidade associada.
A mudança de linguagem é o que mais assusta no começo. Em vez de "fica pronto dia 20", a resposta passa a ser "temos 85% de chance de terminar até dia 20". Parece menos firme, mas é mais honesta e, na prática, mais confiável, porque mostra o risco em vez de escondê-lo. A seguir você vê os dados necessários, as duas técnicas principais e um passo a passo para aplicar em planilha.
Formação relacionada
Método Kanban: preparatório CKMS
Do quadro ao método: STATIK, classes de serviço, métricas de fluxo e cadências, com dinâmicas em quatro aulas.
Por que fazer a previsão de entregas no Kanban com dados
Estimativas de esforço sofrem de dois problemas. O primeiro é que o tempo que um item leva depende mais das esperas do que do trabalho em si: fila para revisão, aprovação do cliente, ambiente de teste ocupado. Quem estima pensa no trabalho e esquece a espera. O segundo é que estimar consome tempo da equipe e, mesmo assim, gera números que ninguém confere depois.
O histórico do quadro já carrega tudo isso. O tempo de ciclo de um item terminado inclui o trabalho, as filas e os bloqueios. A vazão de uma semana inclui interrupções, férias e urgências. Prever a partir desses dados é usar o sistema real em vez do sistema imaginado.
Os dados de que você precisa
O Kanban Guide define as medidas de fluxo que alimentam a previsão:
- Tempo de ciclo (cycle time): o tempo decorrido entre o início e o fim de um item.
- Vazão (throughput): o número de itens terminados por unidade de tempo, contado de forma exata.
- Idade do item em andamento: o tempo desde que um item começou até hoje.
Para calcular as duas primeiras, basta registrar, para cada item, a data em que ele entrou na primeira coluna de trabalho e a data em que chegou ao fim do fluxo. A maioria das ferramentas digitais faz isso sozinha; em planilha, duas colunas de data resolvem. O ponto crítico é definir com clareza onde o item começa e onde termina, e manter essa definição. Se quiser aprofundar cada medida, veja os artigos sobre tempo de ciclo no Kanban e sobre vazão no Kanban.
Quando este item fica pronto: percentis do tempo de ciclo
Para um item isolado, a ferramenta é o gráfico de dispersão do tempo de ciclo. Cada ponto é um item terminado: no eixo horizontal, a data em que terminou; no vertical, quantos dias levou. Sobre os pontos, traçam-se linhas de percentil.
Passo a passo
- Liste os itens terminados nas últimas semanas com o tempo de ciclo de cada um, em dias.
- Ordene do menor para o maior.
- Encontre os percentis. O percentil 85 é o valor abaixo do qual estão 85% dos itens. Com 20 itens, é o 17º da lista ordenada.
- Leia a frase de previsão. "85% dos nossos itens terminam em até X dias."
Um exemplo ilustrativo: uma equipe de sistemas terminou 20 itens no último mês com estes tempos de ciclo, já ordenados: 2, 2, 3, 3, 3, 4, 4, 4, 5, 5, 5, 6, 6, 6, 7, 7, 8, 9, 11 e 14 dias.
| Percentil | Posição na lista (20 itens) | Tempo de ciclo | Como comunicar |
|---|---|---|---|
| 50 | 10º | 5 dias | Metade dos itens fica pronta em até 5 dias |
| 70 | 14º | 6 dias | 7 em cada 10 ficam prontos em até 6 dias |
| 85 | 17º | 8 dias | 85% ficam prontos em até 8 dias |
Quando o patrocinador perguntar por um item que acabou de começar, a resposta é: "pelo nosso histórico, 85% de chance de estar pronto em até 8 dias". Repare que a média (cerca de 5,7 dias) seria uma péssima promessa: quase metade dos itens passaria dela.
A expectativa de nível de serviço
O Kanban Guide transforma esse percentil numa política da equipe chamada expectativa de nível de serviço (SLE, do inglês service level expectation). Ela tem duas partes, um tempo decorrido e uma probabilidade, e o próprio guia dá o exemplo de 85% dos itens terminados em oito dias ou menos. Segundo o guia, a SLE deve se basear no tempo de ciclo histórico e ficar visível para a equipe; sem histórico, vale um bom palpite até os dados chegarem.
A SLE se completa com a idade dos itens em andamento: um item que já passou do percentil 70 sem terminar merece atenção na reunião diária. Esse acompanhamento da idade dos itens (aging WIP) é o alerta que chega antes do atraso.
Quando um lote de itens fica pronto: simulação de Monte Carlo
Para várias entregas (um release com 30 itens, a próxima fase do projeto), somar tempos de ciclo não funciona, porque os itens andam em paralelo. A técnica usual é a simulação de Monte Carlo com a vazão histórica.
A lógica é esta: a vazão das próximas semanas vai se parecer com a das semanas passadas. Então você sorteia, ao acaso, valores da vazão histórica para cada semana futura até completar os itens e anota quantas semanas foram necessárias. Repetindo isso milhares de vezes, surge uma distribuição de resultados possíveis.
Exemplo ilustrativo
A mesma equipe entregou, nas últimas 12 semanas, estes números de itens por semana: 4, 6, 3, 5, 7, 2, 5, 4, 6, 5, 3 e 6. Restam 30 itens para o release. Rodando 10.000 simulações com esses valores, o resultado foi:
| Probabilidade | Semanas para terminar os 30 itens |
|---|---|
| 50% | até 7 semanas |
| 85% | até 8 semanas |
| 95% | até 8 semanas |
A pergunta inversa também é respondida com a mesma técnica. Se o prazo é fixo em 6 semanas, quantos itens cabem? Na mesma simulação, em 85% dos cenários a equipe terminou pelo menos 24 itens, e em 95% terminou pelo menos 22. Isso dá ao gerente uma conversa objetiva sobre escopo: "os 22 itens mais importantes são praticamente certos; os 8 últimos dependem de sorte".
Como fazer a simulação em planilha
- Aba Histórico: liste a vazão de cada semana numa coluna (12 linhas no exemplo).
- Aba Simulação: em cada célula de uma linha, sorteie uma semana do histórico. No Excel em português, a combinação de ÍNDICE com ALEATÓRIOENTRE faz isso, sorteando uma posição entre 1 e o número de semanas.
- Acumule a soma ao longo da linha e registre em que coluna (semana) o acumulado passou de 30.
- Copie a linha para milhares de linhas. Cada linha é um futuro possível.
- Calcule os percentis da coluna "semanas necessárias" e escreva a frase de previsão.
Algumas ferramentas trazem a simulação pronta: o Businessmap (antigo Kanbanize), por exemplo, tem previsão por Monte Carlo no módulo de análise. Em qualquer ferramenta, confira de onde vêm os dados e quais itens entram na conta.
Por que não usar a Lei de Little para prever datas
A Lei de Little relaciona trabalho em andamento, vazão e tempo de ciclo em médias de longo prazo. Ela é excelente para entender o sistema (mais trabalho em andamento com a mesma vazão significa itens mais lentos) e péssima para prometer prazos, porque trabalha com médias e não diz nada sobre a variação. Use a lei para decidir limites de WIP e os percentis ou o Monte Carlo para responder "quando".
Cuidados para a previsão continuar confiável
- O passado só prevê o futuro se o sistema for parecido. Mudou a equipe, o tipo de trabalho ou o processo? Descarte o histórico antigo ou use só as semanas recentes.
- Itens de tamanho parecido. Monte Carlo conta itens. Se um épico de três meses entra como um item, a previsão quebra. Quebre o trabalho antes de ele entrar no fluxo.
- Inclua o trabalho que vai surgir. Se a equipe recebe urgências toda semana, nem toda a vazão vai para o release. Desconte a fração histórica de trabalho não planejado ou aumente a lista de itens.
- Atualize sempre. A previsão é refeita a cada semana com os dados novos. Uma data que piora é informação, não fracasso.
- Comunique com probabilidade. Escolha o percentil conforme o custo de errar: 50% para planejamento interno, 85% ou mais para compromissos com cliente.
- Olhe o fluxo junto. Se o diagrama de fluxo cumulativo mostra filas crescendo, a vazão dos próximos dias tende a ser pior do que a histórica.
E quando não há histórico?
Equipe nova, tipo de trabalho inédito ou projeto que ainda não começou não têm dados para sortear. Nesse caso, estime com faixas, e não com um número. A técnica de três pontos (otimista, mais provável e pessimista) é um bom ponto de partida e já produz uma faixa de prazo. Assim que as primeiras semanas de vazão estiverem registradas, troque a estimativa pela previsão baseada em dados.
Para montar essa primeira faixa, use a ferramenta grátis de estimativa PERT da Projeto Diário: informe os três cenários de cada entrega, veja o prazo esperado e a variação, e comece a registrar a vazão desde já para que a próxima previsão venha do seu próprio quadro.
Perguntas frequentes
Kanban usa estimativa de prazo?
O que é simulação de Monte Carlo no Kanban?
Quantos dados preciso para prever entregas no Kanban?
Preciso estimar o tamanho de cada item para usar Monte Carlo?
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