Diagrama de fluxo cumulativo (CFD): como ler no Kanban
O quadro Kanban mostra o fluxo de hoje. O diagrama de fluxo cumulativo mostra o fluxo de todos os dias anteriores ao mesmo tempo, e é por isso que ele revela coisas que o quadro esconde: uma fila que cresce devagar há três semanas, uma etapa que parou de entregar, um aumento de demanda que a equipe ainda não sentiu no dia a dia.
Também chamado de CFD (do inglês cumulative flow diagram), o gráfico assusta à primeira vista por ser um amontoado de faixas coloridas. Mas basta entender três leituras (vertical, horizontal e inclinação) para tirar dele trabalho em andamento, tempo aproximado de atravessamento e vazão. A seguir você vê como o gráfico é montado, como ler cada dimensão, os padrões mais comuns e os limites do que ele consegue mostrar.
Formação relacionada
Método Kanban: preparatório CKMS
Do quadro ao método: STATIK, classes de serviço, métricas de fluxo e cadências, com dinâmicas em quatro aulas.
O que é o diagrama de fluxo cumulativo
É um gráfico de áreas empilhadas construído a partir das colunas do quadro, a peça mais visível do método Kanban. O eixo horizontal é o tempo (dias ou semanas). O eixo vertical é a quantidade acumulada de itens. Cada faixa colorida corresponde a uma etapa do quadro, e a linha superior de cada faixa conta quantos itens já chegaram àquela etapa ou além dela até a data.
Como os valores são acumulados, as linhas nunca descem: um item que entrou no fluxo continua contado para sempre. A faixa de baixo é a de itens entregues, e ela só cresce. As faixas de cima representam o que entrou e ainda está em alguma etapa.
O CFD não faz parte das medidas obrigatórias do Kanban Guide, que pede o acompanhamento de quatro medidas de fluxo: trabalho em andamento, vazão, idade do item e tempo de ciclo. O diagrama é útil justamente porque mostra três dessas quatro no mesmo desenho. A visão geral das métricas está em métricas do Kanban.
Como o CFD é montado a partir do quadro
Imagine uma equipe com quatro etapas: Comprometido, Em execução, Em revisão e Entregue. Ao fim de cada dia, alguém registra quantos itens, desde o começo da contagem, já chegaram a cada etapa ou passaram dela. O exemplo abaixo é ilustrativo:
| Dia | Comprometido (acumulado) | Em execução (acumulado) | Em revisão (acumulado) | Entregue (acumulado) |
|---|---|---|---|---|
| 1 | 4 | 2 | 0 | 0 |
| 2 | 6 | 4 | 1 | 0 |
| 3 | 8 | 5 | 3 | 1 |
| 4 | 10 | 6 | 4 | 2 |
| 5 | 12 | 8 | 5 | 3 |
| 6 | 14 | 9 | 6 | 4 |
Cada coluna vira uma linha do gráfico, e o espaço entre duas linhas vizinhas é a faixa de uma etapa. No dia 6, por exemplo, a faixa de Comprometido tem altura 5 (14 menos 9): cinco itens esperando para começar. A faixa de Em execução tem altura 3 (9 menos 6), e a de Em revisão tem altura 2 (6 menos 4).
Muitas ferramentas de quadro Kanban geram esse gráfico a partir do histórico das colunas; vale procurar o relatório de fluxo cumulativo na que a equipe já usa. Numa planilha, basta a tabela acima e um gráfico de área empilhada.
Como ler o CFD: as três leituras
Leitura vertical: quanto trabalho está em andamento
Num dia qualquer, a altura de uma faixa é o número de itens naquela etapa. A soma das alturas das faixas entre o início e o fim do fluxo (tudo menos a faixa de entregues) é o trabalho em andamento do sistema naquela data.
No exemplo, no dia 6 há 5 itens em execução ou revisão (9 menos 4) e mais 5 aguardando início. Se a faixa total vai ficando mais alta semana após semana, a equipe está começando mais do que termina.
Leitura horizontal: quanto tempo leva para atravessar
Trace uma linha horizontal a partir do ponto em que a linha de entregues está num dia e veja em que dia a linha de início chegou à mesma altura. A distância entre esses dois dias é uma aproximação do tempo médio que os itens que terminaram naquela data levaram para atravessar o fluxo.
No exemplo, a linha de entregues chega a 4 no dia 6. A linha de Em execução chegou a 4 no dia 2. O quarto item a começar levou, aproximadamente, quatro dias até a entrega. É uma aproximação: o gráfico supõe que os itens terminam na ordem em que começam, o que nem sempre acontece. Para o conceito de tempo de ponta a ponta e como reduzi-lo, veja o guia de lead time no Kanban.
Inclinação: qual é a vazão
A inclinação da linha de entregues mostra quantos itens terminam por unidade de tempo. Linha íngreme, muita entrega. Linha quase plana, pouca entrega. No exemplo, a linha sobe cerca de um item por dia a partir do dia 3.
Compare a inclinação da linha de entrada com a de entregues. Se a de entrada sobe mais rápido, a demanda está maior que a capacidade de entrega, e a distância vertical entre as duas vai crescer.
Por que as três leituras se conectam
Trabalho em andamento, tempo e vazão estão ligados pela Lei de Little: em um sistema estável, o tempo médio de atravessamento é o trabalho em andamento médio dividido pela vazão média. O CFD mostra essa relação de forma visual. Quando as faixas engordam (mais trabalho em andamento) e a inclinação dos entregues não muda (mesma vazão), a distância horizontal aumenta (mais tempo por item).
Essa é a razão prática para limitar o trabalho em andamento: com a mesma capacidade, menos itens abertos significam itens que ficam prontos mais cedo. O CFD transforma esse argumento em um gráfico que dá para mostrar a um patrocinador.
Os padrões que o CFD revela
| O que você vê | O que costuma significar | O que investigar |
|---|---|---|
| Faixas paralelas, com espessura estável | Fluxo estável: entra mais ou menos o que sai | Nada urgente; foco em reduzir a espessura aos poucos |
| Uma faixa engordando | Gargalo naquela etapa: recebe mais do que entrega | Capacidade da etapa, dependências externas, limite de WIP |
| A faixa seguinte ao gargalo fica fina | A etapa depois do gargalo está sem trabalho | Se a equipe pode ajudar a etapa travada |
| Linha de entregues plana por vários dias | Nada está sendo entregue | Bloqueios, ambiente de homologação, aprovação pendente |
| Degraus grandes na linha de entregues | Entrega em lotes (tudo sai junto) | Política de liberação, janelas de implantação |
| Linha de entrada muito mais inclinada que a de entregues | Demanda acima da capacidade | Critério de entrada, priorização, limite na fila |
| Faixa que some por um período | Etapa vazia ou pulada | Se a etapa é necessária ou se o registro falhou |
| Linhas que descem | Erro de dados ou itens removidos do quadro | Configuração da ferramenta e itens descartados |
Os degraus merecem atenção em projetos com implantação mensal ou aprovação em comitê. O fluxo interno pode estar bom, mas o cliente só recebe de tempos em tempos. O CFD deixa isso claro e ajuda a discutir se a política de liberação faz sentido.
Como usar o CFD na rotina da equipe
- Defina o início e o fim que o gráfico vai considerar. Em geral, do ponto de comprometimento até a entrega. Itens na lista de ideias distorcem a leitura se entrarem na contagem.
- Olhe o gráfico em uma cadência fixa. Na revisão quinzenal ou mensal de entrega do serviço, não na reunião diária. Mudanças no CFD aparecem em semanas.
- Comece pela faixa que mais mudou. A pergunta é sempre "o que aconteceu nessa etapa a partir dessa data?".
- Cruze com o quadro e com a idade dos itens. O CFD aponta a etapa; o quadro e a idade dos itens em andamento apontam quais itens estão presos ali.
- Registre a mudança testada. Se a equipe reduziu um limite de WIP em uma data, marque no gráfico. Assim dá para ver o efeito nas semanas seguintes.
Os limites do diagrama de fluxo cumulativo
O CFD mostra médias e agregados. Ele não mostra:
- Itens individuais. Um item preso há 40 dias some no meio da faixa. Para isso existe o gráfico de idade dos itens em andamento.
- Distribuição de tempos. Saber que o tempo médio é de cinco dias não diz quantos itens levam 15. O gráfico de dispersão de tempo de ciclo mostra a variação.
- Tamanho dos itens. Dez itens pequenos e dez itens enormes aparecem iguais. Se o tamanho varia muito, a leitura da vazão fica distorcida.
- Retrabalho. Um item que volta da revisão para a execução nem sempre aparece no acumulado, dependendo de como a ferramenta conta.
Por isso, o CFD é um painel de diagnóstico do sistema, não um relatório de desempenho de pessoas. Usado para cobrar indivíduos, ele perde o valor, porque a equipe passa a ajustar o quadro para o gráfico parecer bom.
Leve o CFD para o painel do projeto
Escolha um quadro da sua equipe, registre os acumulados de cada etapa por quatro semanas (ou ative o relatório na ferramenta que já usa) e leve o gráfico para a próxima revisão do serviço com uma pergunta: qual faixa mais mudou e por quê. Se você quer montar painéis com o CFD e as demais métricas de fluxo para gestores e patrocinadores, o curso de dashboard aplicado a projetos da Projeto Diário mostra como estruturar os dados e apresentar os indicadores.
Perguntas frequentes
O que é o diagrama de fluxo cumulativo?
Como ver o gargalo no CFD?
O CFD mostra o lead time exato?
Qual a diferença entre CFD e burndown?
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