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Qualidade e Melhoria Contínua

Gráfico de controle em projetos: como ler as variações

Na reunião de acompanhamento, o indicador da semana piorou e alguém pede uma ação imediata. Na semana seguinte melhorou, e a ação é celebrada. Na outra piorou de novo. Boa parte dessas oscilações é só a variação normal do processo, e reagir a cada uma delas costuma piorar o resultado. O gráfico de controle é a ferramenta que separa a variação normal dos sinais de que algo realmente mudou.

Ele foi criado por Walter Shewhart nos laboratórios da Bell nos anos 1920 e é a base do controle estatístico de processo. Em projetos, funciona onde há medições repetidas: tempo de ciclo de tarefas, defeitos por ciclo de teste, resistência do concreto numa obra, tempo de resposta de um sistema. Abaixo estão os tipos de gráfico, o cálculo dos limites passo a passo, as regras de leitura e um exemplo com dados de um projeto de TI.

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O que o gráfico de controle mostra

Todo processo varia. Duas tarefas parecidas não levam exatamente o mesmo tempo; dois lotes de concreto não têm exatamente a mesma resistência. Shewhart separou essa variação em dois tipos:

  • Causa comum: a variação natural, resultado de muitos fatores pequenos que estão sempre presentes. Ela é previsível dentro de uma faixa. Reduzi-la exige mudar o processo.
  • Causa especial: um fator específico, que não faz parte do funcionamento normal e aparece em alguns pontos. Um fornecedor diferente, uma pessoa nova sem treinamento, um bloqueio externo. Ela deixa sinais no gráfico e deve ser investigada caso a caso.

O gráfico de controle mostra os valores em ordem de tempo com três linhas: a linha central (a média), o limite superior de controle (LSC) e o limite inferior de controle (LIC). Os limites ficam, em geral, a três desvios padrão da média e são calculados a partir dos próprios dados. Enquanto os pontos ficam dentro dos limites e sem padrões estranhos, o processo está estável: a variação é de causa comum.

Limite de controle não é limite de especificação

Esta é a confusão mais comum. Os limites de controle descrevem o que o processo produz. Os limites de especificação, ou a meta, descrevem o que o cliente quer.

Limite de controle Limite de especificação
Quem define Os dados, por cálculo O cliente, o contrato ou a norma
Pergunta que responde O processo está estável? O resultado é aceitável?
Muda quando O processo muda O requisito muda

Um processo pode estar sob controle e não atender à especificação: ele produz sempre do mesmo jeito, e esse jeito não é bom o bastante. Nesse caso, investigar pontos isolados não adianta; é preciso mudar o processo. Essa distinção conversa com a diferença entre garantir e controlar a qualidade, explicada em garantia da qualidade e controle da qualidade.

Qual gráfico de controle usar

O tipo depende de como o dado é medido:

Tipo de dado Gráfico Exemplo em projetos
Medida contínua, um valor por vez Valores individuais e amplitude móvel (I-MR) Tempo de ciclo de cada tarefa, prazo de aprovação de cada documento
Medida contínua, em subgrupos Média e amplitude (X barra e R) ou média e desvio (X barra e S) Resistência de vários corpos de prova por concretagem
Proporção de itens defeituosos, amostras de tamanho variável Gráfico p Percentual de entregas reprovadas por semana
Quantidade de itens defeituosos, amostras de mesmo tamanho Gráfico np Itens reprovados em lotes fixos de inspeção
Contagem de defeitos, área de oportunidade constante Gráfico c Defeitos encontrados por ciclo de teste de mesmo tamanho
Contagem de defeitos por unidade, área variável Gráfico u Defeitos por ponto de função, por pavimento inspecionado

Em projetos, o I-MR é o mais útil: funciona com um valor por vez, não exige subgrupos e é fácil de calcular numa planilha.

Como montar um gráfico de controle passo a passo

O exemplo usa o I-MR, com dados ilustrativos e fictícios de um projeto de desenvolvimento de sistema: o tempo de ciclo, em dias, de 20 histórias de usuário, na ordem em que foram concluídas.

História 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Dias 5 7 6 4 8 6 5 7 6 9
História 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20
Dias 5 6 7 4 6 8 5 6 7 5
  1. Organize os dados em ordem de tempo. A ordem é essencial: o gráfico de controle lê sequências.
  2. Calcule a média. A soma é 122, divida por 20: 6,1 dias. É a linha central.
  3. Calcule as amplitudes móveis. A diferença absoluta entre cada valor e o anterior: de 5 para 7, amplitude 2; de 7 para 6, amplitude 1; e assim por diante. São 19 amplitudes, com soma 38.
  4. Calcule a amplitude móvel média. 38 dividido por 19: 2,0.
  5. Calcule os limites. No gráfico de valores individuais, os limites ficam a 2,66 vezes a amplitude móvel média de distância da linha central (o fator 2,66 converte a amplitude em três desvios padrão).
    • LSC = 6,1 + 2,66 × 2,0 = 11,4 dias
    • LIC = 6,1 menos 2,66 × 2,0 = 0,8 dia
  6. Desenhe o gráfico. Os pontos em sequência, a linha central e os dois limites. O gráfico de amplitude móvel, que acompanha o primeiro, tem limite superior de 3,267 × 2,0 = 6,5 e serve para ver saltos bruscos entre pontos seguidos.

Na planilha: coloque os valores na coluna B, a partir de B2. Em C3, calcule a amplitude com =ABS(B3-B2) e arraste. A média vem de =MÉDIA(B2:B21), a amplitude média de =MÉDIA(C3:C21), e os limites são fórmulas simples com essas duas células. Insira um gráfico de linhas com quatro séries: os valores, a média e os dois limites.

Com 20 pontos, os limites são confiáveis o suficiente para começar. Com menos de 15, trate-os como provisórios.

Como ler as variações: os sinais de causa especial

As regras abaixo são variações das regras da Western Electric e das regras de Nelson, as mais usadas para ler gráficos de controle. Cada uma indica que é improvável que o padrão seja só variação comum:

  1. Um ponto fora dos limites. O sinal mais forte.
  2. Sequência longa do mesmo lado da média. Em geral, 8 ou 9 pontos seguidos acima ou abaixo da linha central indicam que o processo mudou de patamar.
  3. Tendência. Seis ou mais pontos seguidos subindo, ou descendo.
  4. Pontos próximos dos limites. Dois de três pontos seguidos no terço externo da faixa, do mesmo lado.
  5. Padrões que se repetem. Ciclos regulares, que costumam ter causa ligada ao calendário (fim de mês, sprint, turno).

Use poucas regras. Quanto mais regras você aplica, maior a chance de alarme falso. Para a maioria dos projetos, as três primeiras bastam.

Exemplo: lendo o gráfico ao longo do projeto

O projeto continuou registrando o tempo de ciclo das histórias seguintes, com os limites calculados nas 20 primeiras:

  • Histórias 21 e 22: 6 e 5 dias. Dentro dos limites, nada a fazer.
  • História 23: 13 dias, acima do LSC de 11,4. Sinal de causa especial. A equipe investigou e encontrou a causa: a história ficou bloqueada aguardando a API de um sistema de terceiros. A ação foi tratar a dependência como risco no planejamento das próximas histórias com integração, e não acelerar o time inteiro.
  • Histórias 24 e 25: 7 e 6 dias, de volta ao padrão.
  • Histórias 26 a 33: 4, 5, 4, 3, 5, 4, 4, 5 dias. Nenhum ponto fora dos limites, mas oito pontos seguidos abaixo da média. Sinal de mudança de patamar, desta vez para melhor. Coincidiu com a adoção de um limite de trabalho em andamento no quadro do time.

Depois de confirmar que a mudança era permanente, a equipe recalculou os limites com os dados do novo patamar. É assim que o gráfico mostra se uma melhoria se sustentou, e é por isso que ele aparece na fase de controle de projetos de melhoria, como no exemplo de projeto Lean Six Sigma com DMAIC.

O que fazer quando aparece um sinal, e quando não fazer nada

Situação no gráfico O que fazer
Ponto fora dos limites Investigar aquele caso específico, enquanto a informação é recente
Sequência longa de um lado Descobrir o que mudou na data em que a sequência começou
Tudo dentro dos limites, mas resultado ruim Não investigar pontos isolados; mudar o processo (análise de causa, Pareto, PDCA)
Tudo dentro dos limites e resultado bom Não mexer; acompanhar

A terceira linha é a mais difícil de aceitar. Quando o processo é estável e o resultado é ruim, cada ponto ruim é fruto das mesmas causas comuns. Cobrar explicação da semana ruim e ajustar o processo a cada oscilação é o que W. Edwards Deming chamou de ajuste excessivo: aumenta a variação em vez de reduzi-la. Para atacar as causas comuns, estratifique os dados e priorize com o diagrama de Pareto.

Gráfico de controle em projetos ágeis

Equipes ágeis acompanham tempo de ciclo e lead time, e o gráfico de controle se aplica bem a esses dados. Duas observações:

  • Algumas ferramentas de gestão ágil têm um relatório chamado "gráfico de controle" que mostra o tempo de ciclo com média móvel e faixa de desvio padrão. É útil para visualizar, mas não aplica as regras de Shewhart. Para ler sinais, exporte os dados e monte o I-MR.
  • Tempos de ciclo costumam ter distribuição assimétrica, com cauda longa para a direita. Antes de montar o gráfico, olhe a forma dos dados num histograma. Com assimetria forte, o LIC pode ficar negativo (sem sentido para tempo) e alguns pontos altos podem ser parte do processo, não causa especial.

Erros comuns com gráfico de controle

  • Usar a meta como limite. Desenhar a meta no lugar do LSC transforma o gráfico de controle num gráfico de cumprimento de meta, que não separa causa comum de especial.
  • Recalcular os limites a cada ponto. Os limites só mudam quando o processo comprovadamente mudou.
  • Misturar processos. Histórias de tipos muito diferentes ou obras com traços de concreto diferentes no mesmo gráfico geram sinais falsos.
  • Reagir a cada oscilação. Variação dentro dos limites não pede explicação semanal.
  • Montar e não olhar. O gráfico precisa de dono e de lugar fixo na reunião de acompanhamento.

O gráfico de controle é uma das sete ferramentas clássicas da qualidade; as outras, e quando cada uma entra, estão no guia de ferramentas da qualidade em projetos.

Monte o primeiro gráfico com dados que você já tem

Escolha uma medida que o projeto registra a cada entrega, como tempo de ciclo, prazo de aprovação ou defeitos por ciclo de teste, exporte os últimos 20 valores em ordem de data e calcule a média, a amplitude móvel média e os limites como no exemplo. Leve o gráfico à próxima reunião e use as três primeiras regras para decidir o que investigar. Para transformar esse e outros indicadores em um painel que se atualiza sozinho e que o patrocinador consegue ler, o curso Dashboard aplicado a projetos ensina a montar no Excel painéis dinâmicos a partir dos dados exportados do projeto.

Perguntas frequentes

O que é gráfico de controle?
É um gráfico de linha com os valores de uma medida em ordem de tempo, uma linha central e dois limites calculados a partir dos próprios dados. Ele separa a variação normal do processo dos sinais que indicam que algo diferente aconteceu.
Qual a diferença entre limite de controle e limite de especificação?
O limite de controle é calculado a partir dos dados e mostra o que o processo produz. O limite de especificação é definido pelo cliente ou pelo contrato e mostra o que se quer. Um processo pode estar sob controle e ainda assim não atender à especificação.
O que é causa comum e causa especial?
Causa comum é a variação natural de um processo, presente em todos os resultados. Causa especial é um fator específico, que aparece em alguns pontos e deixa um sinal no gráfico, como um ponto fora dos limites ou uma sequência longa de um lado da média.
Quantos pontos são necessários para montar um gráfico de controle?
Uma referência comum é de 20 a 25 pontos para calcular limites confiáveis. Com menos dados, dá para montar o gráfico, mas os limites devem ser tratados como provisórios e recalculados quando houver mais histórico.

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