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Qualidade e Melhoria Contínua

Diagrama de dispersão: como ler a relação entre duas variáveis

Na análise de um problema, a equipe quase sempre chega a frases como "quando a revisão é feita com calma, o defeito cai" ou "as obras que atrasam são as de fornecedor novo". O diagrama de dispersão, ferramenta da qualidade entre as sete clássicas, é o jeito mais simples de testar uma frase dessas com dados: cada ponto do gráfico é um par de valores, e o desenho da nuvem mostra se as duas variáveis andam juntas.

O valor da ferramenta está em evitar a ação baseada em impressão. Se a relação aparece, a hipótese ganha força e merece investimento. Se a nuvem não tem forma, a equipe economiza o custo de uma solução que não resolveria nada.

O guia de ferramentas da qualidade em projetos apresenta o diagrama ao lado das demais ferramentas. Aqui o foco é fazer e interpretar: montagem passo a passo, leitura dos padrões, o coeficiente de correlação e os erros de interpretação que mais enganam.

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Para que serve o diagrama de dispersão no projeto

O diagrama responde a uma pergunta: quando uma variável muda, a outra tende a mudar também? Em projetos, ele aparece em três momentos:

  • Na análise de causa: depois que o diagrama de Ishikawa levanta hipóteses, a dispersão testa as que podem ser medidas. "Defeitos aumentam com o tamanho da entrega?" é uma pergunta que o gráfico responde em minutos.
  • Na estimativa: para ver se o esforço real acompanha o tamanho estimado das tarefas, ou se a estimativa não tem relação com o que acontece.
  • No controle: para confirmar se a ação adotada produziu o efeito esperado, cruzando a variável alterada com o resultado.

Exemplos de pares que fazem sentido testar em projetos comuns:

Tipo de projeto Variável X (possível causa) Variável Y (efeito)
Software Horas de revisão de código por história Defeitos encontrados na homologação
Obra Dias de chuva no mês Avanço físico do mês
Implantação de sistema Horas de treinamento por usuário Chamados de suporte no primeiro mês
Evento Dias de antecedência da inscrição Taxa de comparecimento
Compras do projeto Prazo de cotação dado ao fornecedor Variação entre preço cotado e preço final

Como fazer um diagrama de dispersão passo a passo

  1. Escreva a hipótese. "Quanto mais horas de revisão, menos defeitos na homologação." Ela define qual variável vai em cada eixo: a possível causa no eixo horizontal (X), o efeito no vertical (Y).
  2. Colete os pares. Cada observação precisa ter os dois valores medidos sobre a mesma unidade: a mesma história, a mesma obra, o mesmo mês. Valores de unidades diferentes não formam par.
  3. Junte pares suficientes. Com poucos pontos, qualquer desenho pode ser coincidência. Procure reunir algumas dezenas quando possível e registre de onde veio cada dado.
  4. Monte o gráfico. Uma escala por eixo, começando em valores que mostrem a nuvem inteira, sem ligar os pontos com linhas.
  5. Leia o padrão (a tabela de padrões mais abaixo ajuda) e, se fizer sentido, calcule o coeficiente de correlação.
  6. Estratifique. Pinte os pontos por grupo (equipe, fornecedor, tipo de entrega) e veja se o padrão se mantém dentro de cada grupo.
  7. Registre a conclusão como indício, com o próximo passo: confirmar com experimento, ampliar a amostra ou descartar a hipótese.

No Excel ou no Google Planilhas

Coloque X numa coluna e Y na coluna ao lado, um par por linha. Selecione as duas colunas e insira um gráfico do tipo dispersão (no Excel, em Inserir, grupo Gráficos, "Dispersão"). Para a linha de tendência, clique com o botão direito sobre os pontos, escolha "Adicionar Linha de Tendência", marque "Linear" e a opção de exibir o valor de R-quadrado no gráfico. Para o coeficiente de correlação, use =CORREL(A2:A16;B2:B16) no Excel ou no Google Planilhas em português.

Exemplo: horas de revisão e defeitos na homologação

Contexto (exemplo ilustrativo, com dados fictícios). Num projeto de desenvolvimento de um sistema interno, a equipe suspeita que histórias revisadas às pressas chegam à homologação com mais defeitos. Foram levantadas as 15 últimas histórias entregues.

História Horas de revisão (X) Defeitos na homologação (Y)
1 2 7
2 5 6
3 1 9
4 8 3
5 4 8
6 6 3
7 3 5
8 7 6
9 9 2
10 2 10
11 5 4
12 10 4
13 3 8
14 6 5
15 4 5

No gráfico, os pontos descem da esquerda para a direita: as histórias com mais horas de revisão tendem a ter menos defeitos. O coeficiente de correlação desses dados é de cerca de menos 0,78, uma relação negativa forte, e o R-quadrado, de cerca de 0,61.

A leitura correta é cautelosa. O padrão apoia a hipótese, mas não prova que a revisão causou a queda. A estratificação mostrou que as histórias 4, 9 e 12, com mais revisão, eram todas de um desenvolvedor experiente, que também escreve testes automatizados. A equipe decidiu testar a hipótese com uma regra para as próximas sprints (revisão mínima de quatro horas por história) e acompanhar os defeitos antes de mudar o processo de vez.

Como ler os padrões da nuvem de pontos

Padrão O que mostra Exemplo de leitura
Pontos sobem da esquerda para a direita Correlação positiva Entregas maiores, mais defeitos
Pontos descem da esquerda para a direita Correlação negativa Mais treinamento, menos chamados
Nuvem sem direção Sem correlação aparente A hipótese não se sustenta com esses dados
Curva (sobe e depois desce, ou se achata) Relação não linear A partir de certo ponto, mais revisão não reduz defeitos
Dois ou mais grupos separados Existe um fator de estratificação Duas equipes com comportamentos diferentes
Ponto muito distante dos demais Valor atípico Erro de registro ou evento especial a investigar

Quanto mais os pontos se aproximam de uma linha, mais forte é a relação. Uma nuvem larga com leve inclinação indica relação fraca: a variável X explica pouco do que acontece com Y.

O coeficiente de correlação

O coeficiente de correlação de Pearson (r) resume a força e a direção da relação linear num número entre menos 1 e 1. Perto de 1, relação positiva forte; perto de menos 1, negativa forte; perto de zero, sem relação linear. O R-quadrado, que o Excel mostra na linha de tendência, é o quadrado de r e indica a parcela da variação de Y acompanhada por X na reta.

Dois alertas. Primeiro, r só mede relação em linha reta: uma relação curva forte pode dar r baixo, e por isso o gráfico vem antes do número. Segundo, não existe corte universal que separe correlação "boa" de "ruim"; o que importa é se a relação é forte o bastante para justificar a decisão que está em jogo.

Erros comuns de interpretação

  • Tomar correlação por causa. Duas variáveis podem andar juntas porque uma terceira afeta as duas. No exemplo, a experiência do desenvolvedor poderia explicar tanto as horas de revisão quanto os poucos defeitos.
  • Concluir com poucos pontos. Cinco ou seis pares formam desenhos convincentes por acaso.
  • Misturar grupos diferentes. Juntar dados de duas equipes ou dois fornecedores pode criar uma relação que não existe dentro de nenhum deles, ou esconder uma que existe.
  • Cortar o intervalo. Se todas as histórias tiveram entre 3 e 4 horas de revisão, o gráfico não tem como mostrar o efeito da revisão.
  • Apagar o ponto que atrapalha. Valor atípico é para investigar, não para remover sem explicação.

O diagrama de dispersão entre as outras ferramentas da qualidade

O diagrama de dispersão costuma vir depois do Ishikawa (que gera hipóteses) e antes do plano de ação (que só deve atacar causas com evidência). Ele também conversa com outras ferramentas: o histograma mostra como uma variável se distribui, e o gráfico de controle mostra se ela está estável ao longo do tempo. O guia de análise de causa raiz em projetos mostra como essas peças se encaixam numa investigação completa.

Se você ainda não sabe em que área do projeto procurar relações, o health check do projeto ajuda a apontar onde estão os sinais de problema, e o diagrama de dispersão entra depois, para testar as explicações.

Para começar, escolha uma hipótese que a equipe repete sem dados, levante os pares das últimas entregas numa planilha e monte o gráfico antes da próxima reunião de análise. Se quiser transformar esse tipo de análise em painel recorrente do projeto, o curso Dashboard aplicado a projetos da Projeto Diário ensina a montar um painel dinâmico em Excel para acompanhar o andamento com dados.

Perguntas frequentes

Para que serve o diagrama de dispersão na qualidade?
Para verificar se duas variáveis variam juntas, por exemplo horas de revisão e defeitos encontrados. É usado principalmente para testar uma hipótese de causa antes de investir numa ação.
Qual a diferença entre diagrama de dispersão e gráfico de controle?
O diagrama de dispersão cruza duas variáveis para ver se há relação entre elas. O gráfico de controle acompanha uma variável ao longo do tempo para ver se o processo está estável.
Quantos pontos são necessários num diagrama de dispersão?
Não há número mágico, mas com menos de uma dúzia de pares qualquer padrão pode ser acaso. Quanto mais pares de dados, mais confiável a leitura.
Como fazer diagrama de dispersão estratificado?
Use cores ou símbolos diferentes para cada grupo (equipe, fornecedor, turno) no mesmo gráfico. Se os grupos formam nuvens separadas, a relação pode estar sendo causada pelo grupo, e não pela variável do eixo.

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