Planejamento, Cronograma e Custos
EAP de obra: exemplo de estrutura analítica na construção civil
A EAP de obra é a Estrutura Analítica do Projeto aplicada à construção: a árvore que decompõe tudo o que a obra entrega, do projeto aprovado ao habite-se, em pacotes que dá para orçar, programar, medir e cobrar de alguém. Ela parece simples, porque toda obra tem fundação, estrutura, vedação, instalações e acabamento. O difícil é decidir como organizar esses serviços e lembrar do que não está no orçamento de engenharia.
Este estudo de aplicação usa um exemplo ilustrativo de edifício residencial para mostrar as decisões que importam: organizar por serviço, por pavimento ou dos dois jeitos; até onde decompor; e como fazer a mesma estrutura servir ao cronograma, ao orçamento e às medições. O conceito geral de EAP está em o que é EAP; aqui o foco é o canteiro.
Formação relacionada
Microsoft Project Professional
Cronogramas confiáveis, linha de base, controle de desvio e relatórios que sustentam decisão de diretoria.
O que muda quando a EAP é de uma obra
Uma obra tem quatro características que pesam na estrutura:
- Serviços repetidos por local. A estrutura do 2º pavimento é igual à do 3º, mas acontece em outro momento, com outra medição.
- Orçamento já existente. A construtora quase sempre tem uma planilha orçamentária por serviço antes do planejamento. A EAP precisa conversar com ela.
- Medição mensal. O cliente, a incorporadora ou o órgão público paga pelo que foi executado e medido. O pacote de trabalho precisa ser medível.
- Entregas que não são construção. Aprovações, alvará, ligações de energia e água, vistoria do Corpo de Bombeiros e documentação de entrega têm prazo e responsável, mas não aparecem na planilha de serviços.
Por serviço, por pavimento ou misto
Há três formas de organizar o segundo e o terceiro nível de uma EAP de obra:
| Organização | Segundo nível | Terceiro nível | Bom para | Limitação |
|---|---|---|---|---|
| Por serviço | Fundações, estrutura, vedações... | Subserviços | Casas e obras sem repetição | Não mostra o avanço por pavimento |
| Por local | Térreo, 1º pavimento, 2º pavimento... | Serviços em cada local | Reformas por área, obras com frentes independentes | O orçamento por serviço fica espalhado |
| Misto | Sistema construtivo | Pavimento ou trecho | Edifícios com pavimentos repetidos | Exige disciplina na codificação |
Não há forma certa para toda obra. O critério é responder a duas perguntas: como a obra vai ser medida e como as equipes vão se mover no canteiro. Se a estrutura avança pavimento a pavimento e a medição é por pavimento, esse corte precisa aparecer em algum nível.
O estudo: edifício residencial de quatro pavimentos
O exemplo é ilustrativo. Uma construtora vai erguer um edifício residencial com térreo e quatro pavimentos tipo, 16 apartamentos, estrutura de concreto armado e alvenaria de vedação. O projeto arquitetônico está aprovado, e os projetos complementares estão em finalização. A escolha foi a estrutura mista: sistema construtivo no segundo nível, pavimento no terceiro quando há repetição.
1 Edifício residencial entregue e com habite-se
1.1 Gerenciamento da obra
1.1.1 Plano da obra e cronograma físico-financeiro
1.1.2 Medições e relatórios mensais
1.1.3 Diário de obra e controle de qualidade
1.1.4 Segurança do trabalho no canteiro
1.2 Projetos e aprovações
1.2.1 Projetos complementares compatibilizados
1.2.2 Alvará de construção
1.2.3 Projeto de prevenção de incêndio aprovado
1.3 Canteiro e serviços preliminares
1.3.1 Canteiro instalado (tapume, barracões, ligações provisórias)
1.3.2 Locação da obra
1.4 Infraestrutura
1.4.1 Movimento de terra
1.4.2 Fundações
1.4.3 Vigas baldrame e impermeabilização
1.5 Superestrutura
1.5.1 Estrutura do térreo
1.5.2 Estrutura do 1º pavimento
1.5.3 Estrutura do 2º pavimento
1.5.4 Estrutura do 3º pavimento
1.5.5 Estrutura do 4º pavimento e barrilete
1.6 Vedações
1.6.1 Alvenaria do térreo
1.6.2 Alvenaria dos pavimentos tipo (1º ao 4º)
1.7 Instalações
1.7.1 Instalações elétricas e de comunicação
1.7.2 Instalações hidrossanitárias
1.7.3 Instalações de gás
1.7.4 Sistema de combate a incêndio
1.7.5 Elevador instalado e liberado
1.8 Cobertura e impermeabilização
1.8.1 Cobertura
1.8.2 Impermeabilização de áreas molhadas e lajes expostas
1.9 Revestimentos e acabamentos
1.9.1 Acabamentos do térreo e áreas comuns
1.9.2 Acabamentos dos apartamentos (1º ao 4º)
1.9.3 Esquadrias e vidros
1.9.4 Pintura interna e de fachada
1.10 Áreas externas
1.10.1 Calçadas, muros e paisagismo
1.10.2 Estacionamento
1.11 Entrega
1.11.1 Ligações definitivas de energia, água e esgoto
1.11.2 Vistoria do Corpo de Bombeiros
1.11.3 Habite-se
1.11.4 Manual do proprietário e termo de entrega das unidades
Leitura comentada da estrutura
O primeiro nível é o resultado, não "Obra". "Edifício entregue e com habite-se" deixa claro quando o projeto termina. Sem isso, a obra "acaba" quando a última demão de tinta seca, e a documentação fica sem dono.
Os ramos 1.1, 1.2 e 1.11 são os que a engenharia esquece. Gerenciamento, aprovações e entrega não são serviços de canteiro, mas consomem gente e prazo. As ligações definitivas e o habite-se, em especial, costumam ficar perto do caminho crítico no fim da obra, porque dependem de terceiros. O estudo de caminho crítico da obra mostra como uma ligação de energia pode virar o item que define a data de entrega.
A superestrutura está quebrada por pavimento, a alvenaria não totalmente. A estrutura de cada pavimento é medida e liberada separadamente, porque a próxima laje depende dela. A alvenaria dos pavimentos tipo foi agrupada num pacote só porque, nesse exemplo, a mesma empreiteira executa os quatro andares em sequência contínua e a medição é feita por percentual do pacote. Se a medição fosse por pavimento, o pacote seria dividido.
O elevador é um pacote próprio. Ele envolve fabricação, montagem e liberação por empresa especializada, com prazo longo de fornecimento. Escondido dentro de "instalações", o pedido costuma sair tarde.
Até onde decompor a EAP de obra
O pacote de trabalho de uma obra está no tamanho certo quando passa em quatro testes:
- Tem um responsável só: uma equipe própria ou uma empreiteira.
- Cabe num ciclo de medição ou em poucos: se um pacote leva oito meses, você mede percentual subjetivo durante oito meses.
- Tem critério de conclusão claro: laje concretada e desformada, alvenaria conferida no prumo e no esquadro, ensaio de estanqueidade aprovado.
- Corresponde a itens identificáveis do orçamento: você consegue dizer quais linhas da planilha compõem aquele pacote.
Abaixo disso, já é atividade de cronograma: "armar pilares do 2º pavimento", "concretar laje do 2º pavimento", "desformar". Essas ações entram no cronograma como desdobramento do pacote 1.5.3, não como novos níveis da EAP.
Como ligar a EAP ao orçamento, ao cronograma e às medições
A mesma estrutura precisa servir a três usos. O que faz isso funcionar é a codificação compatível.
- Orçamento. Cada linha da planilha orçamentária recebe o código do pacote a que pertence. A soma por código dá o orçamento de cada pacote, e a soma dos pacotes bate com o total da obra. Se sobrar linha sem código, falta pacote na EAP; se sobrar pacote sem linha, falta custo no orçamento.
- Cronograma. Os pacotes viram tarefas de resumo, e as atividades do cronograma ficam embaixo deles. A data de cada pacote passa a ser calculada pelas atividades e dependências, não digitada.
- Medições. O avanço medido por pacote, multiplicado pelo orçamento do pacote, dá o valor executado no mês. Comparado com o cronograma físico-financeiro, mostra se a obra está adiantada ou atrasada em valor, e não só em percentual geral.
Para os pacotes contratados de empreiteiras, escreva a ficha do dicionário da EAP com o que está incluído, o que fica de fora e o critério de medição. É ali que se evita a discussão sobre "isso estava no preço ou não".
Erros comuns na EAP de obra
- Copiar a planilha orçamentária e chamar de EAP. A planilha tem centenas de itens de insumo e serviço, sem gerenciamento, aprovações nem entrega.
- Organizar só por fase cronológica. "Fase 1, fase 2, fase 3" mistura serviços e não ajuda a medir nem a contratar.
- Usar verbos. "Executar fundações" é atividade. Na EAP, "Fundações" é entrega.
- Esquecer itens de longo prazo de fornecimento. Elevador, esquadrias sob medida e quadros elétricos precisam de pacote ou, no mínimo, de marco de pedido.
- Deixar terceiros fora. Concessionárias, prefeitura e Corpo de Bombeiros têm prazos que a obra não controla, mas que a EAP precisa mostrar.
- Mudar a estrutura no meio da obra. Depois que as medições começam, reorganizar a EAP quebra o histórico. Decida o corte por serviço ou por pavimento antes da primeira medição.
Monte a EAP da sua próxima obra
Comece pelo primeiro nível como resultado ("entregue e com habite-se"), defina o corte do segundo e do terceiro nível pela forma de medição e acrescente os ramos de gerenciamento, aprovações e entrega antes de abrir a planilha orçamentária. Depois, confira linha a linha se todo custo tem pacote e todo pacote tem custo. Outros formatos de estrutura, inclusive uma reforma de escola pública, estão em modelo de EAP de projeto, e o guia de planejamento de projetos mostra o que vem antes e depois da EAP.
Para desenhar a estrutura sem começar do zero, abra o editor de EAP grátis da Projeto Diário e escolha o modelo de obra: ele numera os itens, guarda o responsável e o dicionário de cada pacote e exporta em Excel e imagem para anexar ao plano da obra. Quando a estrutura for para o cronograma, o curso Microsoft Project Professional, da Projeto Diário, ensina a transformar os pacotes em tarefas de resumo, salvar a linha de base e acompanhar as medições.