PDCA em 8 etapas: o método MASP passo a passo
O ciclo PDCA cabe numa frase (planejar, fazer, checar, agir), e é justamente por isso que muita equipe o aplica pela metade: pula da descrição do problema direto para a solução e chama de "C" uma olhada rápida no resultado. A versão conhecida como PDCA 8 etapas, ou MASP (Método de Análise e Solução de Problemas), resolve essa falha ao dizer o que precisa estar pronto antes de passar de uma etapa para a seguinte.
O MASP é a adaptação brasileira do QC Story, o roteiro de solução de problemas usado nos círculos de controle da qualidade japoneses, e foi difundido aqui por Vicente Falconi Campos. Ele não substitui o PDCA: é o PDCA aplicado a um problema concreto, com quatro das oito etapas dentro do planejamento.
A seguir, cada etapa com o objetivo, as ferramentas e o critério de saída, e um exemplo ilustrativo que atravessa as oito. Se você precisa antes da visão geral do ciclo e de onde ele entra no projeto, o guia de ferramentas da qualidade em projetos situa o PDCA ao lado das demais ferramentas.
Formação relacionada
Panorama das habilidades técnicas e comportamentais esperadas de um gestor de projetos.
Como as 8 etapas do MASP se distribuem no PDCA
| Fase do PDCA | Etapa do MASP | Pergunta que a etapa responde | Saída esperada |
|---|---|---|---|
| P (planejar) | 1. Identificação do problema | Qual é o problema e quanto ele custa? | Problema descrito com número, meta e responsável |
| P | 2. Observação | Como o problema se manifesta? | Características do problema por tempo, local, tipo e sintoma |
| P | 3. Análise | Quais são as causas fundamentais? | Causas confirmadas com dados |
| P | 4. Plano de ação | O que fazer para bloquear as causas? | Plano com responsável, prazo e custo |
| D (fazer) | 5. Ação | O plano foi executado como previsto? | Ações concluídas e registradas |
| C (checar) | 6. Verificação | O bloqueio funcionou? | Comparação antes e depois contra a meta |
| A (agir) | 7. Padronização | Como impedir que o problema volte? | Procedimento, treinamento e controle atualizados |
| A | 8. Conclusão | O que fica para os próximos problemas? | Relatório final e problemas remanescentes listados |
A proporção diz muito: metade do método é planejamento. Equipes que gastam pouco tempo nas etapas 2 e 3 costumam executar ações que atacam sintomas, e o problema volta.
O exemplo que acompanha as etapas
Contexto (exemplo ilustrativo, com dados fictícios). Uma secretaria estadual implantou um sistema de protocolo eletrônico. Três meses após o início da operação, o projeto ainda está na fase de estabilização, e as unidades reclamam que muitos processos são devolvidos ao setor de origem por erro de cadastro, o que atrasa os prazos legais de resposta. O gerente do projeto decide conduzir um MASP antes de encerrar a estabilização.
Etapa 1: identificação do problema
Objetivo: transformar a reclamação em um problema mensurável e decidir se ele merece um MASP.
O que fazer:
- Levantar o histórico: quantos processos foram devolvidos por erro de cadastro, em quanto tempo e com que impacto.
- Escrever o problema como resultado indesejado de um processo, sem causa embutida. "Usuários não sabem cadastrar" já é uma hipótese de causa; "18% dos processos são devolvidos por erro de cadastro" é o problema.
- Definir a meta, com prazo, e nomear o responsável pelo MASP.
No exemplo: nos últimos 60 dias, 18% dos processos abertos foram devolvidos ao menos uma vez por erro de cadastro. Meta: reduzir para 5% em 90 dias.
Critério para avançar: problema com número, meta, prazo e responsável aprovados por quem patrocina o projeto.
Etapa 2: observação
Objetivo: conhecer o problema por vários ângulos antes de procurar causas. É a etapa mais pulada e a que mais economiza tempo depois.
O que fazer:
- Estratificar os dados: por unidade, tipo de processo, turno, perfil do usuário, campo com erro.
- Coletar o que faltar com uma folha de verificação, anotando cada devolução e o motivo.
- Ir ao local: observar o cadastro sendo feito, conversar com quem devolve e com quem recebe de volta.
No exemplo: a estratificação mostrou que 70% das devoluções vinham de dois campos (classificação do assunto e interessado) e se concentravam em quatro das vinte unidades, as que entraram na última onda de implantação.
Critério para avançar: o problema está descrito por onde, quando, em que tipo e com que frequência ocorre. Um diagrama de Pareto costuma ser a forma mais clara de mostrar essa concentração.
Etapa 3: análise
Objetivo: encontrar e confirmar as causas fundamentais do problema observado, não do problema genérico.
O que fazer:
- Reunir quem conhece o processo e levantar hipóteses com o diagrama de Ishikawa, focado no recorte da etapa 2.
- Escolher as causas mais prováveis e aprofundar cada uma com 5 porquês.
- Testar as hipóteses com dados. Causa não confirmada não vai para o plano.
No exemplo: três hipóteses foram testadas. A lista de assuntos tinha itens com nomes parecidos e sem descrição (confirmada: 60% dos erros de classificação ocorreram entre pares de assuntos semelhantes). As quatro unidades da última onda receberam treinamento remoto de uma hora, contra oito horas presenciais das demais (confirmada pela comparação entre ondas). O cadastro de interessados permitia duplicidade (confirmada em parte). O guia de análise de causa raiz em projetos detalha as técnicas desta etapa.
Critério para avançar: causas fundamentais confirmadas com dados, e não só votadas em reunião.
Etapa 4: plano de ação
Objetivo: definir ações que bloqueiem as causas confirmadas, e não que tratem o efeito.
O que fazer:
- Para cada causa, propor ações e escolher as de melhor relação entre efeito e custo.
- Detalhar cada ação em formato 5W2H: o quê, por quê, onde, quando, quem, como e quanto.
- Separar ações de bloqueio (atacam a causa) de ações de contenção (reduzem o dano enquanto o bloqueio não vem).
No exemplo: revisar a tabela de assuntos, fundindo pares ambíguos e incluindo descrição; repetir o treinamento nas quatro unidades no formato presencial; criar regra de validação contra interessado duplicado. Contenção: uma pessoa de referência por unidade conferindo os cadastros por 30 dias.
Critério para avançar: toda causa confirmada tem ao menos uma ação, toda ação tem dono e prazo, e o plano foi aprovado. A ferramenta de plano de ação 5W2H da Projeto Diário monta essa tabela e marca o que atrasar.
Etapa 5: ação
Objetivo: executar o plano e registrar como foi executado.
O que fazer:
- Comunicar o plano a todos os envolvidos e explicar por que cada ação existe.
- Executar e acompanhar no ponto de controle do projeto.
- Registrar desvios: ação que mudou, atrasou ou foi feita de outro jeito. Na verificação, esse registro separa "o plano não funcionou" de "o plano não foi cumprido".
No exemplo: a revisão da tabela atrasou duas semanas porque dependia de aprovação jurídica. O atraso ficou registrado, e a contenção foi estendida.
Etapa 6: verificação
Objetivo: comprovar com dados se o bloqueio foi efetivo.
O que fazer:
- Medir o mesmo indicador da etapa 1, do mesmo jeito, por tempo suficiente para ver a tendência.
- Comparar antes e depois, inclusive por estrato: o problema pode cair na média e continuar alto numa unidade.
- Verificar efeitos colaterais, como aumento do tempo de cadastro.
Se a meta não foi atingida, o MASP volta à etapa 2, e não à 4. Bloqueio sem efeito sinaliza que a observação ou a análise deixou algo de fora.
No exemplo: em 90 dias, a devolução caiu para 6%. A estratificação mostrou que uma das quatro unidades seguia em 15%: lá, a pessoa treinada saiu de férias logo após o treinamento. A equipe voltou à observação apenas para essa unidade.
Etapa 7: padronização
Objetivo: impedir que o problema volte quando a atenção diminuir.
O que fazer:
- Atualizar o procedimento, o manual do sistema e a configuração que mudou.
- Incluir o novo conteúdo no treinamento de novos usuários.
- Definir o controle que vai detectar a volta do problema, com indicador e frequência.
No exemplo: a taxa de devolução por erro de cadastro entrou no painel mensal da área de protocolo, e o treinamento presencial passou a ser obrigatório para novas unidades.
Etapa 8: conclusão
Objetivo: encerrar o MASP e transferir o aprendizado.
O que fazer:
- Relacionar os problemas remanescentes e o que não foi resolvido.
- Registrar as lições aprendidas e avaliar a condução do método (o que demorou, o que faltou de dado).
- Reconhecer a equipe e decidir o próximo problema a atacar.
No exemplo: ficou como remanescente o cadastro duplicado de interessados, que depende de integração com a base de pessoas do estado e foi encaminhado como requisito para a próxima fase do projeto.
Erros que esvaziam o PDCA em 8 etapas
- Começar pela etapa 4. A equipe já chega com a solução e preenche as etapas anteriores para justificá-la.
- Problema genérico. "Melhorar o atendimento" não tem como ser verificado. Sem número na etapa 1, a etapa 6 não existe.
- Causa votada e não confirmada. O Ishikawa gera hipóteses; os dados decidem.
- Verificação curta demais. Duas semanas de bons números podem ser acaso. Defina o período antes de olhar o resultado.
- Pular a padronização. Sem ela, o PDCA vira ação pontual e o mesmo problema reaparece meses depois.
MASP, 8D e DMAIC: qual escolher
O MASP é o caminho natural para problemas internos com dados disponíveis e equipe própria. Quando o problema foi reclamado por um cliente e exige contenção imediata e resposta documentada, o relatório 8D é mais adequado. Quando a variação do processo precisa de análise estatística mais pesada, o DMAIC entra em cena; a comparação está em PDCA ou DMAIC: diferenças e quando usar cada um.
Para aplicar agora, escolha um problema recorrente do seu projeto, escreva a etapa 1 com número e meta e reserve tempo de agenda para a observação antes de qualquer reunião de solução. Quando chegar à etapa 4, monte o plano na ferramenta 5W2H gratuita e use a mesma tabela para acompanhar a etapa 5.