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Stakeholders, Comunicação e Liderança

Modelo ADKAR: como preparar as pessoas para a mudança

O modelo ADKAR parte de uma constatação simples: organizações não mudam, pessoas mudam. Um sistema novo pode entrar no ar no prazo e, seis meses depois, metade da equipe ainda fazer o trabalho na planilha antiga. Do ponto de vista do cronograma, o projeto terminou. Do ponto de vista do resultado, a mudança não aconteceu.

O ADKAR dá ao gerente de projetos uma forma de enxergar essa distância antes que ela vire problema. Ele descreve cinco resultados que cada pessoa precisa alcançar, em ordem, e permite descobrir em qual deles cada grupo está travado. Com isso, a equipe para de fazer "mais comunicação" ou "mais treinamento" no escuro e passa a agir na barreira certa.

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O que é o modelo ADKAR

O ADKAR foi criado por Jeff Hiatt, fundador da Prosci, e é um dos modelos de gestão de mudanças mais usados em empresas. A sigla reúne cinco resultados:

  • Awareness: consciência da necessidade de mudar.
  • Desire: desejo de participar e apoiar a mudança.
  • Knowledge: conhecimento de como mudar.
  • Ability: habilidade de aplicar o novo comportamento no dia a dia.
  • Reinforcement: reforço que sustenta a mudança.

Dois pontos diferenciam o ADKAR de outros modelos. Primeiro, ele descreve resultados na pessoa, não atividades da equipe do projeto: "fazer um workshop" é atividade; "o supervisor sabe explicar por que o processo muda" é resultado. Segundo, a ordem importa: treinar quem ainda não quer mudar gasta dinheiro e gera frustração.

Para ver como o ADKAR se posiciona diante de Kotter e Lewin, leia modelos de gestão de mudanças comparados.

As cinco etapas do ADKAR em gestão de mudanças

Etapa A pessoa consegue dizer Sinal de que falta Ações que ajudam
Consciência "Entendo por que isso está mudando e o que acontece se não mudar" "Por que mexer no que funciona?" Explicar o motivo do negócio, com dados; mensagem do patrocinador e da chefia direta
Desejo "Quero participar" ou ao menos "aceito participar" Concordância em público, inércia na prática Ouvir objeções, mostrar o ganho pessoal, envolver em decisões, tratar perdas reais
Conhecimento "Sei o que fazer e como" Perguntas básicas repetidas, erros de procedimento Treinamento no momento certo, guias rápidos, exemplos do próprio trabalho
Habilidade "Consigo fazer no dia a dia, no ritmo real" Sabe na sala de treino, trava na operação Prática assistida, suporte no local, tempo para aprender, ajuste de metas no início
Reforço "Continuo fazendo, e voltar ao antigo não compensa" Retorno gradual ao jeito antigo Reconhecimento, indicadores de uso, retirada do caminho antigo, correção rápida de desvios

Por que consciência e desejo são etapas separadas

É a confusão mais comum. Uma pessoa pode entender perfeitamente por que a empresa vai trocar o sistema e, mesmo assim, não querer, porque vai perder autonomia, ganhar trabalho ou ficar exposta a metas. Comunicar mais o motivo não resolve falta de desejo. Ouvir e tratar o que a pessoa perde, sim.

Por que conhecimento e habilidade também

Saber e conseguir são coisas diferentes. O analista que acertou todos os exercícios do treinamento pode travar quando tem vinte chamados na fila e o sistema novo pede três telas onde o antigo pedia uma. Habilidade se constrói com prática real e suporte por perto, não com mais horas de sala.

Ponto de barreira: o diagnóstico que orienta as ações

A prática difundida pela Prosci é avaliar cada etapa numa escala de 1 a 5 e procurar a primeira etapa, na ordem da sigla, com nota 3 ou menos. Essa é o ponto de barreira. As ações se concentram nela, porque as seguintes não se sustentam enquanto ela não for resolvida.

Se um grupo tem consciência 4, desejo 2, conhecimento 4 e habilidade 3, o ponto de barreira é o desejo. Mais treinamento não ajuda: o grupo já sabe o que fazer e não quer fazer.

A avaliação pode ser feita de três formas, da mais leve à mais formal:

  1. Conversa guiada: o líder direto faz cinco perguntas, uma por etapa, e anota a nota.
  2. Questionário curto: duas ou três afirmações por etapa, com escala de concordância, aplicadas a uma amostra de cada grupo.
  3. Painel por grupo: a equipe do projeto consolida conversas e questionários numa tabela por grupo afetado e revisa a cada marco.

Onde o ADKAR entra no ciclo de vida do projeto

As etapas do ADKAR se encaixam nas fases do projeto, o que facilita colocar as ações no cronograma:

  • Iniciação e planejamento: consciência. O motivo da mudança precisa ser comunicado antes de qualquer treinamento, de preferência pelo patrocinador e pela chefia direta.
  • Planejamento e desenho: desejo. Envolver usuários-chave no desenho e tratar objeções enquanto ainda dá para ajustar a solução.
  • Execução, perto do go-live: conhecimento. Treinamento muito antecipado é esquecido; o ideal é perto do uso.
  • Go-live e operação assistida: habilidade. Suporte no local, plantão de dúvidas, metas ajustadas nas primeiras semanas. O artigo sobre preparação da equipe para o go-live detalha essa fase.
  • Encerramento e pós-projeto: reforço. Indicadores de uso, desligamento do sistema antigo e reconhecimento. É a etapa que mais some do cronograma porque acontece quando a equipe do projeto já foi desmobilizada.

Exemplo: aplicativo de vistoria numa construtora

O exemplo é ilustrativo. Uma construtora com seis obras vai trocar a vistoria em papel por um aplicativo no celular. Três grupos são afetados: engenheiros de obra, técnicos de segurança e mestres de obra. Quatro semanas antes do go-live, a equipe do projeto faz a avaliação:

Grupo Consciência Desejo Conhecimento Habilidade Reforço Ponto de barreira
Engenheiros de obra 4 4 3 2 1 Conhecimento
Técnicos de segurança 5 2 3 2 1 Desejo
Mestres de obra 2 2 1 1 1 Consciência

As ações saem direto da tabela:

  • Engenheiros: treinamento curto, na própria obra, com as vistorias reais da semana.
  • Técnicos de segurança: conversa sobre a objeção. Eles temem que o registro com foto e horário seja usado para cobrar falhas. O projeto combina com a diretoria uma regra clara de uso dos dados e mostra o relatório automático que poupa a digitação de sexta-feira.
  • Mestres de obra: o diretor de obras visita cada canteiro e explica o motivo: a seguradora passou a exigir registro rastreável das inspeções. Só depois disso entra o treinamento.

Duas semanas depois, nova avaliação mostra os mestres de obra com consciência 4 e o ponto de barreira migrando para conhecimento. É o sinal esperado de progresso.

Como montar sua avaliação ADKAR em cinco passos

  1. Liste os grupos afetados a partir do registro de stakeholders, separando por quanto a rotina de cada um muda.
  2. Escreva o resultado esperado de cada etapa para cada grupo, em uma frase. "Mestre de obra registra a vistoria no app no mesmo dia" é melhor do que "mestre de obra treinado".
  3. Avalie de 1 a 5 com uma das três formas acima e encontre o ponto de barreira.
  4. Defina uma ou duas ações por barreira, com responsável e data. Ações de consciência e desejo costumam ser do patrocinador e das chefias, não da equipe do projeto.
  5. Reavalie a cada marco e registre a evolução. A série histórica é o que convence o patrocinador de que a adoção está, ou não está, acontecendo.

Erros comuns com o modelo ADKAR

  • Pular direto para conhecimento. É o erro clássico de projeto de sistema: o plano de mudança vira plano de treinamento.
  • Avaliar a organização como um bloco. A média esconde o grupo travado. Avalie por grupo afetado.
  • Deixar consciência e desejo só com a equipe do projeto. As pessoas querem ouvir o motivo de quem decide e a consequência de quem as lidera no dia a dia.
  • Esquecer o reforço. Sem indicador de uso e sem desligar o caminho antigo, a regressão é questão de tempo.

O ADKAR também conversa com o restante do trabalho com partes interessadas: os grupos afetados são stakeholders, e o nível de engajamento deles muda conforme avançam nas etapas. O panorama está no guia de gestão de stakeholders. Se a mudança é ampla e envolve a organização toda, combine o ADKAR com o modelo de Kotter, que cuida do papel da liderança.

Faça a primeira avaliação esta semana

Pegue a mudança mais próxima do go-live no seu portfólio, liste os três grupos mais afetados e faça a conversa guiada com um representante de cada um. Em uma hora você terá a tabela de pontos de barreira e saberá onde concentrar esforço. Para desenvolver as conversas de influência e a condução de equipes que o ADKAR pede ao líder, o curso Liderança 360 da Projeto Diário é o próximo passo.

Perguntas frequentes

O que significa ADKAR?
É a sigla em inglês de Awareness, Desire, Knowledge, Ability e Reinforcement. Em português: consciência da necessidade, desejo de participar, conhecimento de como mudar, habilidade para fazer e reforço para manter.
Quem criou o modelo ADKAR?
O modelo foi criado por Jeff Hiatt, fundador da Prosci, empresa de pesquisa e capacitação em gestão de mudanças que o difundiu no mundo todo.
O que é ponto de barreira no ADKAR?
É a primeira etapa, na ordem da sigla, em que a pessoa ou o grupo ainda não chegou a um nível suficiente. As ações devem se concentrar nela, porque as etapas seguintes não se sustentam enquanto ela não for resolvida.
ADKAR serve para mudanças pequenas?
Serve. Para uma troca de procedimento numa equipe, basta uma conversa guiada pelas cinco perguntas. A avaliação formal por grupo compensa quando muitas pessoas de áreas diferentes são afetadas.

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