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Gerenciamento de programas e PgMP

Gestão de programas na administração pública: como estruturar

A gestão de programas públicos começa com um problema que todo servidor conhece: o resultado que a população espera depende de várias frentes ao mesmo tempo, conduzidas por áreas diferentes, com orçamentos, contratos e prazos próprios. Reduzir a fila de uma especialidade médica, por exemplo, pode exigir sistema, contratação, capacitação, mudança de norma e acordo com outro ente. Cada frente pode virar um projeto bem gerido e, ainda assim, a fila continuar do mesmo tamanho.

Gerenciar essas frentes como um programa significa nomear o resultado, dar a alguém a responsabilidade de coordenar o conjunto e medir o benefício para a sociedade, não só a execução de cada contrato. No setor público isso tem uma vantagem pouco explorada: boa parte da estrutura que um programa precisa, como objetivo, indicador, meta e órgão responsável, já é exigida pelos instrumentos formais de planejamento.

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Programa do orçamento e programa gerenciado

No setor público, a palavra "programa" tem dois usos. O primeiro é o do planejamento orçamentário, que organiza objetivos, metas e gastos de governo. O segundo é o da gestão de programas, um conjunto temporário de projetos e ações coordenados para obter benefícios. A distinção completa, com exemplos, está em plano, programa e projeto: diferenças.

Para estruturar o trabalho, o que importa é a relação entre os dois: o programa do orçamento dá a finalidade e o recurso; o programa gerenciado organiza os projetos que vão entregar um resultado específico dentro dele. Um mesmo programa do plano plurianual (PPA) pode abrigar vários programas gerenciados, além de atividades permanentes.

O que a legislação federal já oferece como estrutura

Na esfera federal, a Lei nº 14.802, de 10 de janeiro de 2024, que instituiu o PPA 2024-2027, define os atributos de cada programa finalístico. Vale ler o artigo 2º com olhos de gerente de programas, porque vários conceitos se encaixam diretamente:

Atributo no PPA federal O que significa na lei Uso na gestão do programa
Objetivo A mudança na realidade social que o programa busca ao enfrentar um problema público Benefício final, ponto de chegada do mapa de benefícios
Objetivo específico Detalhamento do objetivo, com cada resultado esperado Benefícios intermediários
Entrega Bens ou serviços relevantes para um objetivo específico (a lei a classifica como atributo infralegal) Entregas dos componentes
Medida institucional e normativa Atividades regulatórias ou de gestão relevantes para os objetivos Mudanças de negócio e componentes não físicos
Indicador e meta Instrumento que mede o alcance da meta e o valor esperado no período Indicadores de benefício
Órgão responsável Quem responde pelo alcance do objetivo ou da entrega Dono do benefício ou do componente

A mesma lei prevê monitoramento dos programas com dados publicados em sítio oficial, um relatório anual de monitoramento enviado ao Congresso Nacional até 30 de setembro e avaliação de políticas selecionadas pelo Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas (CMAP). Também determina que os planos dos órgãos federais sejam compatíveis com o PPA.

Na governança, o Decreto nº 9.203, de 22 de novembro de 2017, define governança pública como o conjunto de mecanismos de liderança, estratégia e controle usados para avaliar, direcionar e monitorar a gestão, e atribui à alta administração de cada órgão o dever de implantar e manter esses mecanismos. O Tribunal de Contas da União (TCU) publica referenciais de governança de políticas públicas que ajudam a traduzir esses princípios em práticas verificáveis.

Estados e municípios têm instrumentos próprios de planejamento, com nomes e regras definidos na legislação local. Confira o que vale no seu ente antes de desenhar a estrutura. O raciocínio, porém, é o mesmo: aproveitar o que já é obrigatório em vez de criar uma camada paralela de controles.

Como estruturar um programa público passo a passo

  1. Comece pelo problema público. Escreva o problema com dados: quem é afetado, em que escala, onde. O objetivo do programa é a mudança nesse problema, não a execução do orçamento.
  2. Ligue o programa ao planejamento formal. Identifique a qual programa do PPA, objetivo estratégico do órgão ou plano setorial ele pertence. Essa ligação protege o programa em trocas de gestão e facilita a prestação de contas.
  3. Desenhe o mapa de benefícios. Do benefício para a sociedade até as entregas, passando pelas mudanças na forma de trabalhar. No setor público, muitas mudanças são normativas: portarias, fluxos, regras de atendimento.
  4. Defina os componentes. Projetos de obra ou de sistema, contratações, capacitações, ajustes normativos e ações de comunicação entram como componentes, cada um com responsável.
  5. Monte a governança. Patrocinador com autoridade sobre as áreas envolvidas, comitê com representantes dessas áreas, gerente do programa com mandato formal e, quando houver, o escritório de projetos como apoio metodológico. Registre a estrutura em ato oficial, como portaria, para dar legitimidade.
  6. Alinhe o roadmap ao calendário público. Ondas do programa precisam conversar com o ciclo orçamentário, com o tempo das licitações e com os períodos de restrição eleitoral, quando aplicáveis.
  7. Escolha indicadores que conversem com o PPA. Sempre que possível, use os mesmos indicadores ou indicadores que se somam aos do plano formal, com linha de base e meta. O desenho detalhado está em indicadores do programa.
  8. Trate riscos próprios do setor. Licitação deserta ou impugnada, contingenciamento, mudança de prioridade política, dependência de outro ente. O tema tem tratamento próprio em gestão de riscos em projetos públicos.
  9. Planeje a transparência. Defina o que será publicado, com que frequência e onde. Programa com indicadores públicos ganha apoio e sofre menos com descontinuidade.
  10. Planeje a passagem para o serviço contínuo. O programa termina; o serviço público continua. Desde o início, defina qual área vai operar o que o programa entregar.

Estudo de aplicação: redução da fila de consultas especializadas

O caso é fictício e serve para mostrar o raciocínio. Uma secretaria municipal de saúde tem fila longa para consultas em algumas especialidades. A gestão decide estruturar um programa em vez de abrir mais um contrato isolado.

Problema e objetivo. Pacientes esperam meses por consulta especializada, e parte dos encaminhamentos poderia ser resolvida na atenção básica. O objetivo é reduzir o tempo de espera nas especialidades críticas.

Componentes.

Componente Tipo Área responsável
Informatização da regulação de vagas Projeto de sistema Tecnologia e regulação
Teleconsultoria para médicos da atenção básica Projeto de serviço Atenção básica
Mutirões de consultas contratadas Contratação Regulação e compras
Protocolos de encaminhamento Mudança normativa Diretoria técnica
Capacitação das equipes das unidades Capacitação Educação permanente

Benefícios e indicadores. O benefício final é o tempo médio de espera por especialidade. Os intermediários são a proporção de encaminhamentos devolvidos por falta de critério, o número de casos resolvidos por teleconsultoria sem encaminhamento e o absenteísmo nas consultas agendadas. Todos têm linha de base medida antes do início.

Governança. O secretário é o patrocinador. O comitê reúne regulação, atenção básica, especializada, tecnologia e compras, e se encontra mensalmente. A gerente do programa é uma servidora da regulação, designada por portaria. O escritório de projetos da prefeitura apoia com o modelo de relatório e o acompanhamento do roadmap.

O que a estrutura de programa mudou. Sem ela, os mutirões teriam sido contratados primeiro, por serem a resposta mais visível. Com o mapa de benefícios, ficou claro que, sem protocolos e regulação informatizada, a fila voltaria a crescer logo depois dos mutirões. A primeira onda passou a ser protocolos e regulação; os mutirões vieram na segunda, com a fila já depurada de encaminhamentos sem critério.

Transição. Ao fim, a regulação informatizada e os protocolos ficam com a área de regulação, a teleconsultoria com a atenção básica, e o indicador de tempo de espera entra no relatório de gestão da secretaria.

O que muda em relação a um programa privado

  • Orçamento anual para resultado plurianual. O programa precisa de garantia de continuidade no planejamento formal, ou cada exercício vira uma renegociação.
  • Contratações demoram e têm regras próprias. O tempo do processo licitatório entra no caminho crítico do programa.
  • Vários órgãos e entes. O gerente do programa raramente tem autoridade hierárquica sobre todos os envolvidos. Acordos formais de cooperação e um patrocinador com peso político fazem a diferença.
  • Controle externo e social. Decisões precisam de registro e motivação. Isso é custo, mas também é proteção para quem decide.
  • Trocas de gestão. Programas bem documentados, com indicadores públicos e equipe técnica permanente, atravessam mudanças de governo com mais facilidade.

Erros comuns na gestão de programas públicos

  • Chamar de programa uma lista de obras. Sem benefício definido e sem coordenação entre componentes, é só uma carteira de projetos com outro nome.
  • Medir execução orçamentária como resultado. Empenho e liquidação mostram gasto, não mudança na realidade.
  • Criar uma estrutura paralela ao planejamento formal. Os indicadores do programa e os do PPA divergem, e ninguém sabe qual vale.
  • Gerente sem mandato. Sem ato formal e sem acesso ao patrocinador, o gerente do programa vira apenas um consolidador de relatórios.
  • Esquecer a operação. O programa entrega o sistema e a capacitação, mas nenhuma área foi preparada para manter o serviço.

A governança de um programa de projetos e a relação entre benefícios e partes interessadas, temas centrais para quem estuda para o Program Management Professional (PgMP), estão no guia de gestão de benefícios, stakeholders e governança no PgMP.

Para começar no seu órgão, escreva numa página o problema público, o programa formal ao qual ele se liga e as frentes que precisam andar juntas. Depois, use o mapa da gestão de programas da Projeto Diário, gratuito, para ver de uma vez os assuntos que o gerente do programa precisa conduzir e em que momento cada um ganha peso, e para explicar à alta administração a diferença entre acompanhar projetos soltos e conduzir um programa.

Perguntas frequentes

O programa do PPA é o mesmo que um programa gerenciado?
Não necessariamente. O programa do PPA organiza objetivos, metas e recursos do governo e pode durar indefinidamente. O programa gerenciado é um conjunto temporário de projetos e ações coordenados para obter benefícios específicos, que pode ficar dentro de um programa do PPA.
Quem deve ser o gerente de um programa público?
Alguém com autoridade delegada para coordenar os componentes entre áreas e, se for o caso, entre órgãos, e com acesso direto ao patrocinador. Na prática, costuma ser um servidor de carreira da área responsável pelo resultado, apoiado pelo escritório de projetos.
Como lidar com a troca de gestão no meio do programa?
Deixe o programa documentado e ligado aos instrumentos formais de planejamento, com indicadores públicos e equipe técnica permanente. Isso reduz a dependência de pessoas e facilita a decisão da nova gestão de continuar, ajustar ou encerrar.
Município pequeno precisa de gestão de programas?
Só quando há um resultado que depende de vários projetos e áreas ao mesmo tempo. Nesse caso, uma estrutura enxuta, com patrocinador, gerente, reunião mensal e poucos indicadores, já traz ganho.

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